Opinião

Ritmos diferentes

Vivemos num tempo em que tudo acontece depressa. As decisões que se tomam longe chegam cá quase de imediato. A economia reage em meses, às vezes em dias. A informação circula sem pausa porque o mundo não abranda.

Mas há uma parte da nossa vida que continua a andar a outro ritmo: mais lento, mais cauteloso. Muitas vezes, demasiado atrasado. E essa diferença começa a sentir-se.

Não é preciso grande análise para perceber isso. Basta ouvir o que se diz à mesa. Não nos discursos preparados, mas nas conversas simples. Aquelas que surgem entre um prato e o café, entre um copo e outro. É aí que se tem notado, cada vez mais, a sensação de desfasamento.

De que os problemas já são conhecidos há tempo suficiente, para continuarem à espera de uma resposta. De que aquilo que muda lá fora não encontra, cá dentro, a mesma capacidade de adaptação. De que há sempre mais um estudo, mais uma fase, mais uma explicação — quando o essencial é mais do que óbvio.

E isso acumula. Não de forma dramática, mas constante. Vai criando a ideia de que estamos sempre um passo atrás. Que quando se decide, já se devia ter decidido antes. Que quando se corrige, o problema já aumentou.

À mesa, normalmente isso não se diz com estas palavras. Diz-se de forma mais simples. Mais direta. Mais honesta.  Mas a ideia está lá com toda a sua importância.

Por isso, quando o que se sente no dia a dia começa a coincidir com aquilo que se vai dizendo, mesmo sem grande elaboração, talvez seja porque há algo que não está a acompanhar o ritmo do tempo em que vivemos. E quando isso acontece demasiadas vezes, deixa de ser só impressão.

Será que eu sou o único a achar que isso está a acontecer nos Açores?

 

(Crónica escrita para Rádio)